PREPARANDO-SE
PARA O COMBATE REAL
"Liberte
o tigre que há em você!"
Imagine-se
frente a frente com um indivíduo armado disposto, não
a intimidá-lo, mas a matá-lo. Imagine o estampido de um
disparo percorrendo rapidamente o espaço chegando a seus ouvidos.
Muitos de nós nunca passamos por uma situação real
em que se coloca a prova nossa capacidade de superar nossos medos e
colocar em prática o que aprendemos. De maneira geral, em nossas
ocupações diárias, um acontecimento que coloque
em risco nossa vida é raro. Quando acontece, a imprevisibilidade
de nossas reações dita se iremos viver ou morrer. Em um
combate os ferimentos são reais, muitas vezes sérios e
podem demandar grandes cuidados médicos posteriores. Além
disto, mesmo pequenos ferimentos podem levar a incapacitação
parcial ou total. É fato que um simples tiro de raspão
pode afetar nossa concentração, nossa confiança
e nosso espírito de luta, além de incapacitar certos movimentos.
Muitas pessoas chegam a apresentar hipotensão ao verem sangue.
Algumas chegam até a desmaiar ou vomitar.
O
agente de segurança como qualquer outra pessoa tem reações
negativas e positivas. A reação negativa se caracteriza
um estado de paralisia mental, onde o agente de segurança fica
completamente parado, não conseguindo obedecer a comandos simples,
como "saia do carro", por exemplo, o que pode provocar, inclusive,
uma escalada no uso da força por parte do marginal, que imagina
estar sendo ignorado; ou "ativação biomecânica
desordenada", onde a vítima, completamente desesperada,
começa a tomar atitudes sem sentido, fazendo com que o criminoso
fique mais agressivo em sua abordagem. Positivamente o agente de segurança
diminui o tempo entre o pensar e o agir, respondendo prontamente a ameaça.
Neste
contexto o controle da dor é essencial, assim como a frieza para
lidar com sangue e ferimentos, tanto próprios como do adversário
(pois ao contrário do que ocorre nos filmes, um oponente ferido
não desfalece pacificamente ao receber um tiro certeiro). É
preciso estar preparado psiquicamente, pois as cenas e os sons em um
contexto de luta real diferem muito daqueles presenciados nos treinos.
Além disto, quantos de nós está de fato preparado
para receber um tiro (praticamente inevitável em uma situação
real)? Pense: será que sua técnica se manteria se você
estivesse com dor ou sangramento?
Nos
treinos, quando recebemos um golpe fatal ou quando estamos acuados ou
se nos ferimos, damos uma pausa e depois continuamos. Este é
um hábito que pode criar condicionamentos desfavoráveis,
fatais num combate real (no qual, mesmo com grande desvantagem ou feridos,
não podemos simplesmente "jogar a toalha"). O comedimento
e o respeito frente ao nosso colega de treinamento também podem
limitar nosso condicionamento, pois moldam nossa atitude. Numa luta
real podemos desviar a atenção do adversário com
atitudes, gestos ou palavras por tempo necessário para que se
desfira um golpe fatal. Deve-se lembrar que para sobreviver não
há regras. O domínio do emocional do oponente pode estar
em nossas palavras, assim como sua forma de lutar (com mais ou menos
precaução). Intimidá-lo, induzi-lo a erros, enganá-lo
pode ser uma forma de vencê-lo.
Treinar
em contextos próximos dos reais é o ideal, obviamente
tomando-se as devidas precauções para que acidentes mais
graves não ocorram.
Algo que se pode ver em filmes e que na vida real pode ser bastante
amedrontador é o adversário mostrando, através
de automutilação, que está pronto para morrer no
combate, sendo a dor algo secundário. Lembre-se, não subestime
um indivíduo que está acuado, desesperado ou não
tem nada a perder. Mesmo um indivíduo drogado, em fuga, ou defendendo
algo que lhe é muito importante pode realizar verdadeiras façanhas
e nos surpreender mesmo gravemente ferido. Antes de sair atacando estude
a atitude, a segurança e a habilidade de seu adversário.
Se você perceber que suas chances de vencê-lo são
mínimas, fuja. Lembre-se dos ditos de Sun Tsu:
"Se você não conhece a si mesmo e nem a seu inimigo,
perderá todas as batalhas. Se você conhece a si mesmo,
mas não conhece seu inimigo perderá metade de suas batalhas.
Se você conhece o inimigo e a si mesmo não precisa temer
o resultado de cem batalhas".
Da
mesma forma que você pode induzir seu adversário a respostas
emocionais através de provocações, atitudes ou
gestos, ele também pode fazê-lo com você. Controle
emocional é essencial para quem está lidando com a vida
de pelo menos duas pessoas. Deve-se saber quando é prudente atacar
e quando é sábio fugir. Além disto, o orgulho e
o afã da luta não podem cegá-lo a ponto de induzir
que você pratique um excesso do qual se arrependa amargamente
depois. A profissão de segurança não é para
vingança, não somos juizes, nem executores, é para
defesa de sua própria vida ou das pessoas que confiaram em nosso
serviço.
Texto:
Ricardo Nakayama
