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DESMISTIFICANDO
QUEBRAMENTOS
Muitas
pessoas, especialmente leigos e alunos jovens, ficam bastante
impressionadas com demonstrações em que
objetos são quebrados por lutadores. Madeira, telhas,
barras imensas de gelo, todo tipo de material já
foi usado nisso. O termo geralmente empregado para descrever
essas demonstrações é "quebramento".
Artes específicas utilizam nomes mais específicos
- geralmente o termo empregado nas artes nipônicas
é "tameshiwari" quando a técnica
é feita com as mãos nuas.
Bem,
EXISTEM quebramentos verdadeiros, realizados sem truques.
Eles exigem muito treino. Mas a esmagadora maioria deles
são fraudes. E como esse tipo de fraude é
muito utilizada por picaretas para atrair alunos, irei
explicar os métodos mais conhecidos aqui.
Antes
de qualquer coisa, é preciso explicar alguns conceitos.
O primeiro deles: não necessariamente são
as mãos do lutador que quebram o objeto. É
possível manter o objeto sobre um apoio e, na hora
do golpe, fazer com que ele se choque contra o apoio.
Assim, é possível quebrar um tijolo mantendo-o
a alguns centímetros de uma pedra que sirva como
"mesa de demonstração", e no momento
do golpe o tijolo bate com violência contra a pedra.
A pedra, por ser bem mais resistente, quebra o tijolo
- e não o golpe do lutador, que apenas o "impulsiona".
Este seria um "quebramento que se utiliza de espaços",
já que é possível empilhar vários
objetos com alguns centímetros de espaço
vazio entre eles, e com o golpe fazer com que todos se
choquem entre si e se partam.
Em
segundo lugar, alguns truques se aproveitam da forma do
material. Entortar uma barra de metal comprida é
bem mais fácil do que uma curta. Quanto maior a
relação comprimento/espessura do objeto,
mais propenso a entortar ou se partir ele é. É
por isso que ninguém consegue partir esferas maciças
de metal - numa esfera, comprimento e espessura possuem
a mesma medida.
Terceiro,
o peso do conjunto é importante. A força
necessária para quebrar uma pilha de telhas não
é a "soma" da força necessária
para se quebrar todas elas isoladamente. Na mecânica
do movimento, as telhas partidas de cima contribuem para
que as de baixo se partam por conta do seu peso. Claro,
tudo vai depender de como os objetos foram dispostos.
Barras
de gelo: depois de congelada, quebre a barra de gelo
inteira com uma marreta e depois coloque os "cacos"
para congelar de novo, apenas completando os espaços
com mais água. O resultado é uma barra de
gelo extremamente quebradiça.
Telhas
e tijolos: molhe-os e depois coloque para secar ao
sol por alguns dias. Na verdade, a simples exposição
constante ao sol já é suficiente para diminuir
a resistência desses materiais. A mesma tática
funciona com alguns vasos de cerâmica.
Madeira
e azulejos: Use um instrumento pontiagudo para fazer
um sulco profundo na parte de trás da madeira ou
azulejo. Esse pedaço vai ficar mais frágil
do que o restante e o objeto vai se partir bem ali. Ou
então parta o objeto antes e cole, mas tome o cuidado
de não deixar marcas visíveis de que já
estava partido. Geralmente a madeira utilizada em demonstrações
é o pinus, por ser barata, de baixa qualidade e
com pouca resistência. É possível
quebrar uma placa de pinus sem truques, apenas batendo
no ângulo correto em relação ao sentido
das fibras da madeira. Algumas vezes, em demonstrações,
os executantes entregam a tábua para alguém
da platéia tentar quebrar e nesse momento invertem
a placa de forma que as fibras da madeira dificultem o
quebramento. Depois que a pessoa da platéia desiste,
seguram a tábua no sentido correto novamente e
algum dos lutadores que está executando a apresentação
a quebra com facilidade.
Garrafas:
Escolha o local onde quer que a garrafa se parta, amarre
um barbante embebido com álcool e ponha fogo no
barbante. Imediatamente depois de queimar, ainda quente,
coloque a garrafa debaixo de água corrente. Repita
a operação algumas vezes, e a garrafa vai
ficar mais frágil no ponto onde os barbantes estão
sendo queimados. Existe ainda uma forma de se quebrar
uma garrafa cheia de líquido. Basta enchê-la
deixando apenas cerca de dois dedos de espaço vazio
e segurá-la com o gargalo aproximadamente na metade
do indicador com o polegar. Depois basta um "tapa"
na abertura para fazer com que a garrafa se parta - o
ar se expande e pressiona o líquido, que acaba
quebrando a garrafa.
Tacos
de baseball: Serre-os até aproximadamente dois
terços da espessura e depois cole a porção
serrada, ou disfarce o corte com algum tipo de resina.
Pedra natural: Essa é mais complicada. Existem
duas formas. A primeira consiste em escolher uma pedra
que se espatife com facilidade, mas isso nem sempre convence
a audiência (é fácil perceber o truque).
A segunda consiste em deixar a pedra um pouco acima do
apoio onde ela será quebrada e, na hora do golpe,
fazer com que ela se choque contra a outra superfície
(como descrito no início do texto). Ainda assim
exige um certo treino, já que pedras naturais são
bastante resistentes. O segredo está em escolher
bem o material contra o qual a pedra irá se chocar.
Partindo
correntes: Embora atualmente tenha caído em
desuso, o truque de partir correntes com os braços
ou amarrar alguém com uma corrente e fazê-la
se partir quando o "prisioneiro" faz força
para escapar é relativamente simples. Basta preparar
um dos elos da corrente para que se quebre com facilidade,
cortando-o e depois fazendo o remendo com uma solda ruim
que se rompa com facilidade.
Entortando
barras de ferro: Este truque se aproveita da relação
entre o comprimento e a espessura do material. Vergalhões
de ferro usados em construções são
extremamente maleáveis quando confeccionados no
comprimento e espessura comumente utilizados em apresentações
de artes marciais. Basta aplicar a força de forma
correta, e eles entortam. Não há muito "segredo"
nisso.
Entortando/quebrando
espadas: Este truque também se aproveita do
mesmo princípio físico acima. Espadas são
achatadas lateralmente; posicionar uma espada de aço
não temperado em um ângulo de 45 graus contra
qualquer superfície e dar uma pancada com força
suficiente na lâmina fará com que ela se
parta. Às vezes as lâminas até são
temperadas, mas de forma que o aço resultante seja
mais maleável do que o esperado - o que faz com
que a lâmina entorte. Se uma espada dessas fosse
utilizada em um campo de batalha da antiguidade, deixaria
seu usuário em maus lençóis devido
à má-qualidade.
Cama
de pregos: Quanto menor a área, maior é
a pressão exercida sobre ela. Uma cama com um único
prego seria algo impressionante, porém aumentando-se
o número de pregos, distribui-se o peso por uma
área maior, diminuindo a pressão. A pressão
exercida por cada prego acaba se tornando insuficiente
para penetrar a pele, e não faz mal algum.
Batendo
pregos com as mãos nuas: Extremamente simples.
O prego geralmente usado nestes tipos de apresentações
possui uma "cabeça" (a porção
achatada) bem mais larga do que a usual. Ele é
mantido encaixado na porção mais macia de
uma madeira previamente preparada com um pequeno furo,
algumas vezes preenchido por resina. Quando o lutador
golpeia o prego com as mãos, a força exercida
sobre a "cabeça" do prego (que possui
uma superfície considerável, para não
machucar a mão do praticante) é potencializada
pela superfície menor da ponta do prego. A pressão
exercida perfura a madeira sem grandes dificuldades, principalmente
se a madeira já continha algum furo antes.
Realizando
quebramentos enquanto se segura um ovo na mão fechada:
Em algumas demonstrações o lutador segura
um ovo em sua mão fechada e depois golpeia diferentes
objetos - barras de ferro, tábuas, etc. - executando
todos os demais "quebramentos" acima, para depois
abrir a mão e mostrar à platéia que
o ovo continua intacto, o que demonstra o quanto suas
mãos são fortes e rígidas. Isso pode
ser executado de duas formas. A primeira é utilizando
um ovo cozido. A segunda é segurando-o da forma
correta, já que a casca dos ovos não é
tão frágil quanto as pessoas imaginam e
tolera bem a aplicação de certas forças
sobre ela (embora isso demande uma certa prática).
Pressionando
espadas contra o corpo sem se cortar: Este truque
é muito utilizado nas artes chinesas. Um praticante
mantém uma espada junto ao corpo com a lâmina
em contato com a pele, enquanto o outro bate nela com
outra ferramenta qualquer. As espadas utilizadas para
este fim não possuem fio, além de terem
espessura homogênea em toda a lâmina - ou
seja, as "costas" da espada são da mesma
espessura da porção em que o fio deveria
estar. Além disso, é feito um controle da
força exercida sobre o corpo apenas pela forma
correta de se segurar o objeto. Por isso o praticante
não se corta.
Quebramentos
"seletivos": Empilhe tudo sem espaços
entre os objetos (sejam tijolos, gelo, etc.), mas lembre-se
de deixar APENAS UM item "preparado" com as
artimanhas acima (por exemplo, apenas um dos tijolos é
quebradiço). Quando bater, a força do impacto
irá ser transmitida através do material,
mas apenas o mais fragilizado irá se partir. Assim,
é possível (por exemplo) quebrar apenas
o oitavo de uma pilha com dez tijolos. Obviamente este
efeito será atribuído ao "controle
do ki" depois.
Quebramentos
"com fogo": Além da preparação
inicial, jogue fluido de isqueiro no objeto (ou na pilha
de objetos) e acenda. Você não vai se queimar
porque o tempo de bater e recolher o membro (seja a mão
ou a perna) é muito curto, e as chamas não
irão afetá-lo. IMPORTANTE: NÃO USE
ROUPAS FACILMENTE INFLAMÁVEIS (COMO SEDA OU ALGUMAS
FIBRAS SINTÉTICAS) AO EXECUTAR ESTA TÉCNICA.
Também é preciso cuidado para não
exagerar na quantidade ou errar na escolha do fluido,
já que o mesmo pode "grudar" no praticante
por conta da viscosidade e produzir queimaduras.
Existem
outras táticas para os mais diferentes objetos
(fazer um único furo central no local onde a pancada
será dada, serrar o objeto até metade da
sua espessura, etc.), mas estas são as técnicas
básicas.
Obviamente
nem todos utilizam destas artimanhas em demonstrações,
e nem todos os que usam estes truques o fazem por má
índole. Algumas vezes aprenderam que este é
"o jeito correto" ou "o único jeito"
de fazer a demonstração.
Reconhecendo
demonstrações fraudulentas: No caso
das barras de gelo, as que foram "preparadas"
possuem rachaduras internas, e isso pode ser visto a olho
nu. Elas também tendem a se partir em diversos
pedaços pequenos ao invés de se partirem
apenas no local do impacto. As telhas, tijolos e vasos
de cerâmica que foram adulterados possuem uma coloração
ligeiramente diferente da usual. Os azulejos e objetos
de madeira costumam possuir ranhuras ou marcas de que
já foram quebrados anteriormente, e tendem a se
partir de forma exageradamente regular - como se houvessem
sido cortados. Nos demais casos, é fácil
reconhecer a fraude quando se sabe qual o procedimento
para executá-la, o que já foi descrito acima.
Agradeço ao Sr. Marcos Storck por descrever os
truques de entortar barras de ferro e quebrar garrafas
cheias de líquido, além de exemplificar
muito bem a respeito do uso das fibras da madeira em demonstrações.
Texto
David Gonçalves Borges
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