Defesa contra estupro para mulheres – Ricardo Nakayama

Em primeiro lugar, a maioria dos cursos de defesa pessoal trata especificamente das técnicas e do condicionamento físico sem ressaltar a importância do condicionamento emocional para enfrentar a situação de violência.
O marginal escolhe sua vítima através de uma análise entre o risco e o benefício em atacar determinada vítima. Ele observa:

  • A maneira com a pessoa se veste, por exemplo, o maniaco calcula que uma mulher de calça jeans apertada levará mais tempo para consumar o estupro do que uma mulher com saia;
  • O penteado da pessoa, fica muito mais fácil dominar uma mulher com cabelos compridos ou com rabo de cavalo do que uma mulher com cabelo curto;
  • O local e horário da abordagem, preferencialmente vias de pouco movimento em horários com pouca atividade;
  • A desatenção da vítima, ou seja, se está conversando em um celular, lendo um livro, etc., ficando mais fácil a abordagem.

Chamamos esses tópicos de facilitadores, ou seja, a vítima de maneira consciente ou inconsciente ajuda a ser escolhida como alvo pelo perpetrador do ataque.

Abre-se alguns”parenteses” aqui:

  • Nunca é a mulher a culpada por ser atacada, ela tem todo o direito de vestir o que quiser, chamando ou não a atenção das pessoas, tampouco é culpada de ter um corpo bonito e chamativo.
  • Não é a questão de se privar de gostos pessoais ou colocar roupas que escondem o corpo e sim adequar o uso das roupas ao contexto, local que irá visitar e se possível, conhecer previamente até o nível de criminalidade do local. Conhecimento e aplicá-lo de modo a prevenir possíveis ataques e evitar traumas profundos que exigem muito tempo para serem curados.

O modo de atuação do marginal envolve 5 etapas distintas:

  • Ele precisa abordar a vítima, neste caso, o elemento surpresa é sua maior arma, já que escolherá o melhor local para isto;
  • Imobilizará a vítima, principalmente psicologicamente, para evitar que ela faça uma reação;
  • Alcançará o objetivo, ou seja, cometerá o estupro;
  • Escala ou desescala a violência, é o momento onde o marginal libera, parte para a violência sexual ou mata a vítima;
  • Foge.

Pensando no aspecto de segurança a melhor defesa pessoal é evitar ser escolhida como vítima, ou seja, agir de forma preventiva.

Desta forma é importante:

TER ATENÇÃO – evite ocupar as duas primeiras filas dos semáforos e não se esqueça proteja sempre o lado do condutor do veículo; 50 a 60 metros antes dos semáforos já reduza a marcha e deixe os apressados ultrapassarem, procure ainda transitar nessa marcha reduzida, com o lado do condutor (motorista) bem próximo de outros veículos que estejam estacionados em via pública, caso não exista local para estacionamento de tais veículos, ande o mais rente (próximo) possível do meio-fio (guia), de tal forma o condutor estará evitando que uma motocicleta emparelhe ao seu lado, o ocupante exiba arma de fogo e determine a sua parada. A abordagem fica mais difícil quando mudamos pequenos hábitos. Utilize carros com película de insufilme para dificultar a percepção das pessoas que estão dentro do carro.

NÃO OSTENTAR – correntinhas, relógios, braceletes, relógios ou jóias; não carregue objetos de valor, grande quantia em dinheiro, tenha uma carteira para enganar o marginal, ande sempre com cédulas nessa carteira, pois a inexistência de cédulas na carteira pode causar raiva do marginal, podendo ocasionar lesões corporais ou até mesmo a morte da vítima. Mantenha bolsas e notebooks no porta-malas. Não deixar no carro, mesmo por pouco tempo, pessoas ou animais domésticos;

ESTEJA PREPARADA – Não pare para discutir “batidinhas”, principalmente à noite, os ladrões fazem isso de propósito para assaltá-la. Em caso de pneu furado, somente providencie a troca em local seguro, ainda que distante, mantendo portas e vidros fechados, evitando sempre que possível, o auxílio de estranhos.

NUNCA ACEITE CARONAS – mesmo que a pessoa seja conhecida.

CASO SUSPEITE QUE ESTÁ SENDO SEGUIDA, atravesse a rua e entre em algum estabelecimento movimentado para buscar ajuda;

PROCURE SEMPRE CAMINHAR NO CENTRO DA CALÇADA E CONTRA O SENTIDO DO TRÂNSITO. É mais fácil de perceber a aproximação de um veículo suspeito. Caminhando no centro da calçada você estará evitando passar próximo aos portões das casas, muitas destas casas podem estar abandonadas e estar servindo de abrigo para marginais e desocupados que podem puxar a vítima para dentro da casa e molestá-la sexualmente, roubar seus pertences e até mesmo praticar um homicídio.

PROCURE ALTERAR OS TRAJETOS E HORÁRIOS DE CAMINHADAS, utilize um grupo de pessoas, evite caminhar sozinha;

EVITE ACOMPANHAR O MARGINAL, se ele quiser matá-la ou estrupá-la não o fará em público, estará nas mãos de um bandido sem piedade e pior, sozinha.

DIZ UM DITO POPULAR QUE: “O BOM OBSERVADOR É AQUELE QUE OBSERVA SEM SER OBSERVADO”, é o caso típico do criminoso, o qual fica a espreita de suas vítimas, geralmente, onde há pouca circulação de pessoas em via pública e em algumas vezes atua de carro, está bem vestido e surpreende a vítima.

NÃO UTILIZE APARELHOS SONOROS COMO IPOD, DISC-MAN OU WALK-MAN OU CELULAR, pois os sentidos mais apurados do ser humano são a visão e audição constituindo mecanismos preventivos;

SELECIONE CRITERIOSAMENTE AS PESSOAS QUE LHE PRESTAM SERVIÇOS, muitos dos casos de violência relatados são de pessoas que trabalharam determinado tempo com a vítima, conhecendo sua rotina diária. Não descuide das chaves de sua casa/trabalho, para que não “desapareçam” ou façam cópias;

NÃO ATENDA A PORTA SEM VERIFICAR DE QUEM E DO QUE SE TRATA;

MARQUE HORA COM PESSOAS QUE FARÃO SERVIÇOS EM SUA RESIDÊNCIA, procurando nunca estar sozinha nestas situações;

DOSE A BALANÇA ENTRE O CONFORTO E A SEGURANÇA – é muito confortável receber uma pizza em seu apartamento ao invés de buscar na portaria do prédio, porém, o risco de ser atacada também é maior;

EVITE PASSAR INFORMAÇÕES SOBRE AS PESSOAS DA CASA PELO TEFEFONE TAMBÉM ORIENTANDO AOS EMPREGADOS;

NÃO ATENDA A PORTA SEM VERIFICAR DE QUEM E DO QU SE TRATA, sua empregada acaba de sair de casa, é natural pensar que a pessoa a porta é ela, porém, um marginal pode tê-la abordada e quer entrar em sua residência;

NÃO ECONOMIZE EM SEGURANÇA, deixar o carro na rua e andar algumas quadras para não pagar um estacionamento caro em um evento ou barzinho se achando muito “esperta” é ilusório. Ao sair de madrugada do local, pode ser seguida, roubada, estuprada ou morta;

O MARGINAL PODE NÃO QUERER APENAS SEU DINHEIRO, MAS SIM, SEU CORPO OU SUA VIDA. Muitos dos casos de violência começaram com um roubo, porém, o marginal pode aproveitar que está sozinho com a vítima e mudar sua intenção para cometer uma violência sexual. Outras situações relatadas mostraram surtos psicóticos que levaram o marginal a matar a vítima;

DENUNCIE A VIOLÊNCIA EM SUA PRÓPRIA CASA. Aceitar passivamente que seu companheiro a agrida e não relatar a agressão é muito comum.

· 89% das agressões contra a mulher ocorre dentro da própria família ou pessoas do seu convívio diário.
· As mulheres que sofrem violência são de todas as raças e classes sociais.
· Somente 1/3 da violência contra a mulher é denunciado.

A vítima evita relatar a agressão com medo:

· Da vergonha que ira passar frente a seus amigos, familiares e em sua comunidade. Muitas mulheres de classes média e alta não denunciam para preservar seu “status” e por terem medo de escândalos.
· Por achar que foi a culpada pela agressão;
· Pelo medo de retaliações do agressor;
· Por depender financeiramente do agressor;
· Pelo constrangimento de ir a uma delegacia e relatar a desconhecidos seu drama e de ter de passar por exames médicos invasivos;
· Pela falta de credibilidade em nossas instituições, acreditando apenas na impunidade do agressor.
Todos estes argumentos só servirão para a continuidade das humilhações e agressões e o terror que terá que passar ao lado de uma pessoa, que em algum momento pode tirar até mesmo sua vida. Existem delegacias especializadas no atendimento a mulheres.

A REAÇÃO DEVE SER RÁPIDA E DETERMINADA. Não reagir, como dito no tópico acima, não é uma garantia que o marginal não faça nada com a vítima. O importante é observar a intenção do marginal e caso perceba que seu objetivo não é apenas seus bens, você deve fazer uma reação. Não há outra alternativa!

NÃO DESISTA NUNCA. O marginal quer imobilizar a vítima física e psicologicamente. É comum um primeiro golpe para causar medo. Quando isso acontece, as mulheres ficam paralisadas de uma maneira geral, procurando não reagir com medo de se machucarem mais. Paralisar é a pior coisa que você pode fazer. O elemento surpresa agora é da vítima que pode apenas simular paralisia e mudar rapidamente sua atitude passiva para uma atitude de ataque;

TRANSFORME O MEDO EM RAIVA. O senso comum de não reagir é uma praga arraigada em nossa sociedade. Não reagir é dar ao marginal o domínio da situação, tirando qualquer chance de sobreviver caso sua intenção seja tirar sua vida. Você esta sendo treinada para se tornar uma vítima. Transformar medo em raiva, não é atacar cegamente e sim transformar paralisia em ações.

Um predador sexual, pode agir de duas formas:

  • Planejada
  • Oportunista

A planejada segue algumas etapas:

  1. Escolhe a vítima; normalmente uma pessoa de seu convívio diário, como uma vizinha, parente, amiga, colega de trabalho, etc.
  2. Realiza vigilância sobre a vítima: observa sua rotina, hábitos, locais que frequenta, horários, pessoas que convive, etc.
  3. Escolhe o melhor horário e local: que dificultaram que a vítima fuja ou peça ajuda.
  4. Executa o ataque: de forma rápida, violenta e potencialmente mais perigosa, pois já decidiu se irá ou não matar a vítima.

A oportunista acontece por erros que a própria vítima oferece ao predador, ou seja, por sua desatenção, ou escolhas erradas (local/horário de pouco movimento) foi escolhida. Algumas vezes a ação começou com a intenção de um roubo e mudou para a agressão sexual. Nesse caso,  o improviso e ações não planejadas acontecem durante todo o tempo que a vítima está nas mãos do estuprador.


Texto Ricardo Nakayama