Defesa Pessoal – Ricardo Nakayama

Existem muitas artes marciais, cada qual com vários professores, que por sua vez podem ensinar defesa pessoal de diferentes maneiras. A maioria destes ensinamentos se baseiam em situações ideais, com adversário cooperando com a aplicação das técnicas. Poucas escolas ensinam em situações próximas a realidade, nos “piores cenários possíveis”.

O primeiro ponto, se baseia em no fato que uma defesa pessoal efetiva deve trabalhar o controle emocional, aprendendo a dominar a si mesmo e ao adversário, controlando o medo e aprendendo a utilizá-lo a seu favor. O medo pode se transformar em paralisia ou descontrole das suas ações que se reflete em ataques mal executados ou incoerentes. O lutador deve manipular o medo,transformando-o em agressividade, que se reflete diretamente na sua capacidade de sobreviver a situação de perigo. O treinamento no “pior cenário possível” se baseia em combates com contato pleno (valendo nocautear o adversário), sem regras limitantes, mas com a utilização de equipamento adequado para preservar a integridade física dos alunos, estudando situações de violência e oferecendo respostas rápidas e eficazes, treinando a formação de um lutador completo, no combate desarmado e armado, contra um ou múltiplos adversários.

O segundo ponto importante é o treinamento constante, que trabalha a memória muscular e as qualidades físicas necessárias para diminuir o tempo entre o pensar e o agir, automatizando as respostas, evitando perdas de tempo que podem ser fatais. Neste contexto podemos ressaltar os conceitos e as qualidades físicas fundamentais:

Conceitos

Explosão – é a capacidade de acelerar o movimento dificultando a defesa de seu adversário

Fluidez – é a continuidade dos movimentos em um encadeamento que se molda e/ou adapta-se ao adversário.

Timing – é a capacidade de enxergar o momento certo para aplicação de uma técnica, seja de ataque ou de defesa.

Precisão – é a capacidade de colocar o golpe no ponto visado, na distância correta, obtendo o máximo de dano no adversário.

Qualidades Físicas

Velocidade – É a capacidade de execução de uma sucessão rápida de golpes que, em seu encadeamento, constituem numa só e mesma ação, de uma intensidade máxima e de duração breve ou muito breve. Pode ser de 3 tipos:

velocidade de reação

velocidade de deslocamento

velocidade dos membros

Resistência – É a qualidade física que permite um esforço proveniente de exercícios prolongados, durante um determinado tempo. Há 3 tipos :

Resistência aeróbia – é definida como sendo uma qualidade física que permite a um atleta sustentar por um período longo de tempo uma atividade física relativamente generalizada em condições aeróbicas, isto é, nos limites do equilíbrio fisiológico denominado “steady-state”.

“Steady State”- Sustentar por um período longo uma atividade nos limites do equilíbrio de oxigênio. O desenvolvimento da capacidade aeróbica de um indivíduo provoca desenvolvimento da capacidade funcional do coração; aumento da capacidade muscular de queimar açúcares e gorduras; melhoria no transporte de oxigênio; aumento do coração; aumento dos glóbulos vermelhos (número); redução da massa corporal e redução da FC de repouso.

Resistência anaeróbia – Permite ao atleta sustentar a atividade em débito de oxigênio. A principal variável é o tempo. O objetivo é resistir a uma solicitação superior ao “Steady-State”, mantendo a velocidade e o ritmo apesar do crescente débito de oxigênio. Provoca fadiga bioquímica e neuro-muscular.

Resistência muscular localizada – Permite ao atleta realizar num tempo maior possível a repetição de um movimento com a mesma eficiência. Permite a continuação do esforço tanto em condições aeróbicas quanto anaeróbicas. Depende da duração do esforço para determinados grupos musculares. Provoca fadiga periférica (circulatória e motriz) e também fadiga nervosa.

Flexibilidade – É a qualidade física que condiciona a capacidade funcional das articulações a movimentarem-se dentro dos limites ideais de determinadas ações. É a amplitude de movimento. Depende da mobilidade articular e elasticidade muscular. O sexo feminino e as crianças são mais flexíveis. É uma característica corporal pessoal. Deve ser treinada em sessões freqüentes e com aquecimento prévio.

Agilidade – É a qualidade física que permite mudar a direção do corpo no menor tempo possível. Conhecida como velocidade de “troca de direção”. Para a agilidade, a flexibilidade é importante.

Força – É a qualidade física que permite um músculo ou grupo de músculos produzir tensão e vencer uma resistência na ação de empurrar, tracionar ou elevar. Pode ser de 3 tipos:

Força Dinâmica;

Força Estática;

Força Explosiva.

Coordenação motora – É a qualidade física que permite ao homem assumir a consciência e a execução, levando-o a integração progressiva de aquisições, favorecendo-o a uma ação ótima dos diversos grupos musculares na seqüência de movimentos com um máximo de eficiência e economia.

Rítmo – É a qualidade física explicada por um encadeamento de tempo, dinâmico-energético, uma mudança de tensão e repouso, enfim, uma variação regular de repetições periódicas. A sensibilidade ao ritmo é importante para novas performances. Lembrar que cada pessoa possui um ritmo diário próprio que deve ser levado em consideração na preparação do treinamento.

Equilíbrio – É a qualidade física conseguida por uma combinação de ações musculares com o propósito de assumir e sustentar o corpo sobre uma base, contra a lei da gravidade. Pode ser de 3 tipos:

Equilíbrio dinâmico

Equilíbrio estático

Equilíbrio recuperado

Descontração – É a qualidade física compreendida como um fenômeno neuromuscular resultante de uma redução de tensão na musculatura esquelética. Pode ser de dois tipos:

Descontração total – treinadas em processos psicológicos.

Descontração diferencial – os grupos musculares não exigidos durante uma atividade devem relaxar (economia energética).

O terceiro ponto importante é o estudo da técnica. As artes marciais tem centenas de técnicas diferentes, cada qual deve ser aplicada no momento correto, levando em consideração o tipo de ameaça que devemos enfrentar. Existem diversas limitações para aplicação de uma técnica, como falta de espaço, número de adversários envolvidos, tipo de terreno, etc. O lutador deve aprender a controlar as variáveis e escolher a melhor técnica.

O último ponto é a avaliação correta da situação como um todo. Reações não devem ser executadas sem considerar se vale a pena ou não sua execução. Reagir por reagir é uma atitude temerária. O ponto principal é a intenção do seu adversário. Em uma situação de roubo, o marginal pode apenas querer o seu dinheiro, não sendo aconselhável a reação, porém, se a intenção do marginal é tirar sua vida, não há mais escolhas, a reação é imprescindível.

Texto: Ricardo Nakayama